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quinta, 20 de fevereiro de 2020
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Por Jose Alberto Valiati “Janeiro Sombrio” mês que o Rio engoliu a cidade de Iconha.

Por Jose Alberto Valiati “Janeiro Sombrio” mês que o Rio engoliu a cidade de Iconha.

JANEIRO SOMBRIO

Era 16:30 de uma sexta feira quente. Os primeiros pingos de chuva começavam a cair e percebi que escurecia além do normal naquela tarde de 17 de janeiro, relembrando tristemente a manhã de 17 de março de 2018, data da última grande enchente no município. Mais alguns minutos e o tempo fechou. Por se tratar de chuva torrencial, subi ao terraço e notei que o rio enchia rápido. Fiz um vídeo às 18:15, enviei pelas minhas linhas de transmissão do WhatsApp e retornei à sala de minha residência. A intensidade da chuva aumentou e produzi outro vídeo às 18:38. Fiquei abismado com o volume d’água e comecei, novamente pelas linhas de transmissão, informar às pessoas por áudio, por ser mais rápido e prático.  Fiquei me comunicando via WhatsApp ainda por um período de tempo até que acabou a energia e posteriormente o sinal de telefonia móvel. A noite foi longa. Ansioso para cientizar-me da situação, não consegui dormir. Levantei cedo e fui analizar os estragos. Desci à pé até o Distrito de Duas Barras e deparei-me, ao longo do caminho,  com uma situação crítica ao ver a quantidade de barreiras na estrada e pontes arrancadas. Em Duas Barras a aparência era de cenas de cine catástrofe. Um verdadeiro tsunami. Só que ali o trágico acontecido não era um filme do gênero, e sim, a mais dura realidade. O barulho não era efeito sonoro, e sim, pedras e água rolando e arrancando tudo que vinha pela frente; a água revolta não era efeito visual, e sim original; as vítimas fatais não eram de araque, e sim, consequências da tragédia. Precisava ir à cidade para ver a situação e ligar para minha mulher e filha para saber se meu filho, que foi submetido a uma cirurgia no fêmur, estava realmente de alta. Na cidade, já dispondo de sinal de internet e carregando a bateria no carro do amigo Pedro Lourencini, respondi as mensagens que haviam chegado e atualizei, novamente por áudio, a situação aos meus contatos. Meu caro leitor, as cenas de destruição que vi, acredito que nem Steven Spielberg retrataria no cinema. Postes e pontes arrancados; posto de combustíveis e casas destruídos; barreiras caídas; crateras no asfalto próximo ao rio; o comércio e as casas da parte baixa da cidade cheios de lama; milhões em mercadoria perdidos; carros enterrados na areia ou carregados pela água e colocados em lugares bizarros; mortes confirmadas; voluntários, policiais e bombeiros trabalhando juntos e doações chegando e sendo distribuídas entre os necessitados. Eu tento imaginar o terror vivido pelas famílias e com elas me solidarizo, pois muitas ficaram aflitas por não saberem o paradeiro de alguns membros e também por perderem seus bens. A reconstrução do nosso município levará muito tempo, mas Iconha é forte e a solidariedade, mais uma vez, falará mais alto.

(José Alberto Valiati – 18/01/2020)

JANEIRO SOMBRIO (2)

Estamos no mês de janeiro do 143° ano da chegada dos primeiros imigrantes italianos e, 11 dias após a grande e cruel enchente que destruiu parcialmente o nosso município, muitos moradores e transeuntes ainda não acreditam no armagedon que vêem. Ficam pasmos com as cenas de destruição e tentam encontrar forças para recomeçar. Coisa que será difícil, mas não impossível, desde que alicerçada na fé e na coragem. Centenas de pessoas perderam tudo: quer seja nas residências, quer seja no comércio. Encontramos pessoas desoladas por todos os lados, porém vários sinais nos alertam que não devemos deixar que nossa fé seja abalada. Um exemplo é a imagem de Nossa Senhora de Fátima intacta, mesmo que a enchente tenha chegado até ela. Esse fato chegou até o Vaticano. Temos também fatos irônicos como o acontecido na Creche Sinhá Rosa na comunidade de Bom Destino. Somente um livro ficou enxuto e, curiosamente o título do mesmo é “O Toró”. Esse terrível evento da natureza uniu todo o povo do Estado do Espírito Santo. A solidariedade vem sendo desde o início, o carro chefe. Doações de todas as regiões chegam com o objetivo de aliviar um pouco a dor dos desalojados e desabrigados. Voluntários de vários municípios se fizeram presentes e isso motivou o próprio governador do Estado, Renato Casagrande, organizar um grande mutirão de limpeza das áreas mais atingidas de Iconha em 25/01. Onde quer que se ia nesse dia, era comum encontrarmos líderes momentâneos que queriam ajudar na organização e máquinas e caminhões em um trabalho frenético na tentativa de retirar o acumulado de lama e as montanhas de terra e areia.Teve voluntário que estava aqui trabalhando e sua cidade começava a ser inundada como por exemplo, Cachoeiro de Itapemirim. No interior, com o apoio da prefeitura, vários agricultores trabalhando arduamente na construção de pontes provisórias, pois dezenas foram destruídas e máquinas públicas e particulares desobstruindo estradas. Por todos os cantos  trabalhando, integrantes do Exército, Corpo dos Bombeiros e Polícia Militar. Milhares de mensagens de WhatsApp são trocadas para auxiliar os trabalhos e muitas salvaram vidas. Famílias choram as mortes trágicas de seus entes queridos e outras rezam em agradecimento ao milagre de estarem vivas. A EDP foi muito eficiente na normalização do fornecimento de energia e o SAAE vem fazendo o mesmo com a água. Meu caro leitor, a situação devagar vai sendo normalizada, porém algumas reconquistas só serão a longo prazo, como a construção e reforma de casas e a atividade comercial. Na cidade já não existe mão e contra-mão: existe sim a mão da solidariedade; não existe separação de classes: existe sim uma união nunca vista; não se ouve xingamentos: ouve-se sim  frases de esperança e agradecimento. Guardemos esta frase: ” A lama sujou o pano da nossa bandeira, porém não será obstáculo na reconstrução do nosso município”!

(José Alberto Valiati – 28/01/2020)

JANEIRO SOMBRIO 03

Às margens do rio/ É tudo sombrio/ Mesmo no vazio/ Não fere o seu brio. Uma mulher desolada, mas não desanimada. Talvez um pouco cansada procura forças para enfrentar a nova realidade. Como muitos outros, perdeu boa parte dos seus pertences e depois da “avalanche” fica impressionada com o cenário macabro diante de si. Ela talvez se pergunta: o que houve aqui? Parece que foi um pesadelo! De fato foi um pesadelo. Não provocado por uma noite mal dormida, e sim por um fenómeno de grandes proporções causado pela natureza. Ela também houve muitos dizerem: “Meu Deus, nunca vi tanta água assim”? “Caramba, achei que era o fim do mundo”. “Quando vi, já estava entrando água e lama na minha casa e não deu para salvar as coisas. Graças a Deus estou vivo”! O comentário que ela mais ouviu foi este: “Se fosse de madrugada centenas de pessoas morreriam”. Infelizmente cada pessoa que sofreu com a enchente tem um triste fato a relatar, porém nenhum é mais doloroso que a perda de um ente querido e aqui presto minha homenagem aos saudosos Alex Sufiati, Antenor Sabino (Japonês), Pedro Belmock e Geoceni Bourguignon, vítimas fatais da calamidade.15 dias se passaram. Às pessoas tentam voltar à normalidade, mas para boa parte delas não será a curto ou médio prazo. Casas interditadas não permitirão o retorno de algumas famílias. Edificações arrastadas pela “tsunami” levaram as lembranças de muitos . Grande parte da história e da cultura iconhense foi apagada, mas não será esquecida. Alguns comerciantes estão na dúvida se voltarão ao ramo. A lama transformou-se em poeira com cheiro desagradável. Cidadãos voltam onde residiam e só vêem escombros, areia e terra e choram sentindo-se órfãos da vida. O Poder Público faz o que pode. Os agricultores constroem pontes. Milhares são vacinados para prevenir doenças. Graças a Deus, que impulsiona a solidariedade humana, não falta água e nem comida. Mesmo na dor, pessoas se conhecem e nascem amizades. Os municípios se unem em ajuda mútua, mas as ações enfrentam dificuldades, pois outros também foram atingidos por grandes enchentes. Mesmo assim não há desânimo entre os voluntários que ainda circulam por nossa cidade. Com esperança termino a escrita de mais um artigo que retrata esta triste realidade, retornando ao início deste texto. A dor da mulher é muito forte, mas a fé é muito mais. A empreitada é dura, mas a coragem a superará. Muitas lágrimas ainda cairão, mas o sorriso triunfará. Um recomeço é possível, pois a vida não pode parar. Que Deus abençoe e proteja a todos!

(José Alberto Valiati – 01/02/2020)




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